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Festa na República (Alma; F97)

09/10/2018 - Por fernando de mesquita sampaio
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Dia da Festa

12h00

Você e mais 3 ou 4 voluntários em comum acordo decidem durante o almoço cabular as aulas da tarde, porque afinal a festa requer preparativos imperiosos e de máxima urgência.

14h00-17h30

Você e os 3 ou 4 passam a tarde no banco dos desocupados tomando tereré e enviando o bixo, que também resolveu voluntariamente (ou não, e nesse caso não interessa) cabular a aula, coletar nome, endereço e telefone de beldades transitando pelo bairro. Toda República tem um banco de desocupados, aquele posto de observação estratégico na porta da casa, bastante frequentado por cabuladores. E beldades no caso refere-se a basicamente qualquer indivíduo do sexo feminino sem a companhia dos pais ou consortes.

17h30

Chega o Sistemático. Toda República tem um sistemático. Ele conserta coisas. Ele fiscaliza sujeira debaixo do sofá. Confere o caixinha. Audita as contas. Ele insiste em separar suas meias e cuecas daquele bolo de roupa coletivo.

O Sistemático começa a distribuir tarefas xingando os desocupados que até agora não colocaram cerveja para gelar nem compraram carvão nem arrumaram a área. A eficiência na organização da festa aumenta em 470%. E sistemáticos normalmente tem carros, o que ajuda na execução da lista de tarefas.

18h00

Chega o Dr. Supremo. O Dr. Supremo normalmente inicia suas falas com no meu tempo não era assim, bixada vagabunda, tô velho para essa merda, vão tomar no rabo todo mundo. Drs. Supremos tendem a tornarem-se rabugentos e pouco tolerantes com o passar dos anos. Mas são acalmados com canecas de cerveja gelada.

18h30

O bixo começa a ligar para as beldades cujos dados foram coletados no período vespertino, insistindo para que venham à festa. O cadastro de beldades da República é devidamente atualizado.

19h00

O estalar da primeira tampinha de garrafa voando, por ordem do Dr. Supremo, marca o início oficial da festa. Mas só o Sistemático está de banho tomado. Um bixo é encarregado de acender a churrasqueira. Outro bixo arruma as cadeiras. Os desocupados resolvem se arrumar. Alguém liga o som. Antigos Deuses Maias pressentem o Apocalipse. A sorte está lançada.

19h30

Chegam os primeiros convidados. 

O Nativão. 

O Nativão é o agregado mala, que vai dar uma desculpa que não veio ajudar porque estava ajudando a tia a fazer mudança ou algo assim. 

O Parça. 

O Parça é um desocupado de outra República que queria na verdade morar na sua República. 

O Vizinho. 

O Vizinho é possivelmente o único de toda a redondeza que gosta de nós. Ele vem na festa beber de graça e falar mal dos outros vizinhos. 

O Ex Morador. 

O Ex Morador vem porque ele percebe que a vida dele de estudante era bem melhor que essa de vender veneno e por isso ele fala pro chefe que precisa passar em Piracicaba para ver clientes.  

As Amigas. 

As Amigas são aquelas que aparecem cedo na festa “para dar uma passadinha” porque tem lugares mais interessantes, menos mal falados e mais caros para ir. Às vezes uma das Amiga fica porque está interessadinha em alguém da República. Geralmente alguém bonito, rico e com carro. Tem sempre também a amiga gordinha simpática e a amiga bonita chata, que vivem em simbioses aproveitando uma as qualidades da outra. 

As Amigas vazam quando o percentual de mulheres na festa aumenta além do coeficiente de 1.1 per capita.

20h00

Chega a mulherada. Para um bom agrônomo em formação acadêmica nos bons idos dos anos 80 e 90, o único motivo de uma festa, seu objetivo final, sua medida de sucesso era o acasalamento. Pegar mulher era o objetivo de ir numa festa, que dirá organizar uma que dá muito mais trabalho. Mulheres são a alegria da festa. Quanto menos rigoroso o padrão de qualidade com que as mulheres nos analisam, maior a alegria da festa. Mulheres embelezam o ambiente. Quanto mais mulheres, mais bonita fica a festa. Mulheres fazem barulho. Riem de piadas toscas. Mulheres são seres maravilhosos. E como diria o Coronel Frank Slade em Perfume de Mulher, seja alta ou baixa, gorda ou magra, entre as pernas elas tem o passaporte do paraíso.

21h00

É o ápice da parte civilizada da festa. Pessoas conversam. Bixos servem comes e bebes. A música está amena. Piadas são contadas. Flertes discretos no salão.

22h00

Primeiras baixas. Um bixo dá perda total depois de uma degustação de batidinha de pinga promovida por bixos do segundo ano. O corpo inerte do bixo é arrastado para um canto de sala. O outro bixo, cujo serviço de garçom redobra fica maldizendo seu colega acadêmico e desenha óculos e bigode de carvão na sua cara. O Bebum começa a dar trabalho. O Bebum é aquele cara da república que não sai da chopeira. Para o Bebum, beber é mais importante na festa do que pegar mulher. O Bebum dorme na calçada. O Bebum abraça caixas de cerveja. O Bebum faz comentários inconvenientes para as moças. O Bebum fica sempre valente. As 22h00, o Bebum já elevou o tom de voz, tentou trocar o barril de chopp sem conseguir e xingou os bixos, tentou puxar o hino do Agricolão três vezes, ofendeu as torcidas adversárias e xavecou sem sucesso meia dúzia de donzelas.

23h00

Rolam os primeiros reboques. Sempre acompanhados de um sonoro fóóóóó de caminhão.

O Bebum dorme ao lado da chopeira. O Ex Morador discute gostos musicais com um alguém. Outro intervém. Começa a briga entre um que quer sertanejo e outro que quer por uma banda de rock alternativa super popular na Islândia e que tem um puta som.

Um resto de carne carboniza na churrasqueira.

00h00

A festa ainda está no auge da mulamba. Todas as mulheres respeitáveis se foram. O Ex Morador foi embora com alguma delas no carro da firma. O resto dos vivos remanescentes está enchendo a cara. A casa tá no escuro total. Mulheres são arrastadas pelos cabelos para as cavernas.

Aparecem toxicômanos usando produtos ilícitos. Geralmente lança caseiro fabricado com reagentes de laboratório.

01h00

Começa a depredação de patrimônio. Alguém quebra alguma coisa. O som está insuportável. A polícia aparece. Os policiais tomam uma cerveja, mandam abaixar o som e vão embora. Alguém se machuca brindando com canecas de chopp, alguém entra em coma alcoólico, alguém fratura alguma coisa pulando da janela ou fazendo demonstrações de karatê e vai para o pronto socorro.

O Dr. Supremo convoca a bixada para uma xispada em volta do quarteirão.

02h00

O Animado

O Animado é aquele cara que tá sempre animado. Bebe animado, vai pra aula animado, acorda animado. As 02h00, bêbado e animado, o Animado tem a excelente ideia de ir invadir outra república e fazer uma serenata na casa de umas meninas. O Animado reúne uns bixos e outros animados voluntários e sai na madrugada.

03h00

O silêncio volta a reinar. A música está baixa, os bebuns dormem, os bem sucedidos estão em suas alcovas. Você que não pegou ninguém, e os outros desocupados e inúteis resolvem reacender a churrasqueira e acabar com o chopp.

04h00

O Gordo. 

Toda república tem um gordo. O gordo geralmente é paulistano. As 4h00 Satanás cutuca o Gordo e manda ele atrás de comida. O Gordo aparece atrás de companhia falando puta meu, vamo pegar um lanche meu, mó larica.

O Gordo e um voluntário saem atrás de carrinhos de lanche na madrugada de Piracicaba. Ou acabavam no Paulinho. O Gordo come o lanche e o resto de pizza que sobrou na mesa de dois namorados.

05h00

O Animado volta da aventura na madrugada com uma caixa de rojão e duas placas de trânsito.

Faz um café. Entra nos quartos cantando.

06h00

O sol começa a incomodar o bebum que dormiu no quintal da casa. Ele se arrasta em busca da sombra. O cachorro lambe sua boca. O chão gruda. Há corpos pelo chão entre copos plásticos, tampas de garrafa e pingos de gordura. Alguém dorme sentado no vaso sanitário. Alguém revira caixas térmicas e geladeiras em busca do bem mais precioso da manhã pós festa: a coca cola gelada.

07h00

A véia abre a porta.

07h01

A véia fecha a porta e vai embora. Manda um atestado depois.

08h00

Alguém aparece dizendo que não consegue identificar o ser dormindo ao seu lado. Pede para avisar que ele já foi pra aula.

09h00

Você e mais 3 ou 4 voluntários em comum acordo decidem durante o café da manhã cabular as aulas, porque afinal merecemos um descanso.

 

Este relato é baseado em múltiplas experiências sensoriais vividas em repúblicas de Piracicaba durante os anos 90. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

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